Cardona e Alonso lideram ambição espanhola num sábado repleto de finais
Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milano Cortina 2026 entram na sua fase decisiva nas montanhas italianas, onde decorrem entre 6 e 22 de fevereiro. O sábado, 21 de fevereiro, perfila-se como uma das jornadas mais marcantes para a delegação espanhola — e possivelmente para a história do desporto de inverno do país.
Depois das medalhas já conquistadas no esprint de esqui de montanha — ouro para Oriol Cardona e bronze para Ana Alonso — a dupla volta à competição no relevo misto com a possibilidade real de garantir a terceira medalha espanhola desta edição. Caso subam novamente ao pódio, tornar-se-ão os primeiros atletas espanhóis a somar duas medalhas numa mesma edição olímpica de inverno.
Uma jornada com finais em série
O programa competitivo do dia é particularmente denso: dez finais — um recorde numa única jornada — além de provas preliminares e decisões de medalha em modalidades coletivas.
Entre os momentos mais aguardados estão:
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Final mista de aerials no esqui acrobático, disciplina dominada pela China
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Final masculina dos 50 km em esqui de fundo
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Final masculina de ski cross
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Relevo misto de esqui de montanha
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Biatlo feminino 12,5 km
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Saídas em massa masculina e feminina em patinagem de velocidade
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Final masculina de curling
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Halfpipe feminino de esqui acrobático
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Final feminina de bobsleigh
A completar o programa, disputam-se ainda os jogos de atribuição da medalha de bronze em curling feminino e hóquei no gelo masculino, além das primeiras mangas do bobsleigh masculino.
Favoritos e estrelas em ação
Nos aerials mistos, a China surge como grande potência. Wang Xindi e Xu Mengtao, ambos campeões olímpicos, lideram uma equipa que inclui ainda os medalhados Li Tianma e Shao Qi.
No esqui de fundo, o norueguês Johannes Høsflot Klæbo continua a ampliar o seu legado. Já soma dez ouros olímpicos e procura o décimo primeiro na exigente distância de 50 km, depois de se ter sagrado campeão mundial em Trondheim 2025.
O ski cross masculino promete equilíbrio, ainda que com favoritismo suíço: Ryan Regez, campeão olímpico, e Alex Fiva, vice-campeão, partem na frente. O francês Bastien Midol surge como principal ameaça.
No biatlo feminino, a francesa Julia Simon — já com três ouros nestes Jogos — é a referência, embora a italiana Dorothea Wierer procure conquistar uma medalha em casa.
Na patinagem de velocidade, a saída em massa masculina reúne nomes como o sul-coreano Lee Seung-hoon e o belga Bart Swings. No setor feminino, Irene Schouten e Ivanie Blondin enfrentam a italiana Francesca Lollobrigida, que compete perante o público local depois de já ter conquistado dois ouros em distâncias longas.
No curling masculino, antevê-se uma final extremamente equilibrada entre Canadá e Grã-Bretanha, com ligeira vantagem canadiana pela experiência acumulada.
Já no halfpipe feminino, a chinesa Eileen Gu tenta finalmente alcançar o ouro em Milano Cortina, após duas medalhas de prata.
Cardona e Alonso: confiança construída ao longo de quatro anos
Se o foco espanhol está no relevo misto, ele assenta sobretudo numa parceria consolidada. Oriol Cardona, natural de Banyoles e treinado nos Pirenéus, e Ana Alonso, de Granada, que prepara a época na Sierra Nevada, formam um duo tão discreto quanto eficaz.
Ambos com 31 anos, filhos de pioneiros do esqui de montanha em Espanha, partilham não apenas perfil competitivo, mas também uma relação de confiança absoluta construída ao longo de quatro temporadas.
Na apresentação das equipas — momento geralmente marcado por coreografias ou gestos encenados — mantêm a simplicidade: ombros juntos, sorriso breve, concentração total.
«Vamos ganhá-la», afirmou Cardona recentemente, sem hesitações, quando questionado sobre nova medalha.
Um formato mais exigente
A prova de relevo misto difere bastante do esprint onde ambos já foram medalhados. Se aí percorriam apenas 700 metros por ronda, agora cada atleta cumpre duas voltas alternadas num circuito técnico de 1.500 metros, prolongando o esforço por quase meia hora contínua.
As duplas francesa — Thibaut Anselmet e Emily Harrop — e suíça — com Marianne Fatton — surgem como principais adversárias, embora já tenham sido derrotadas pelos espanhóis em várias ocasiões.
A parceria que resistiu a tudo
A união começou em 2022, quando o relevo misto ainda era novidade olímpica. A evolução foi progressiva: quarto lugar no Europeu de Boí Taüll 2022, primeiras vitórias em 2023 e prata mundial em 2025.
Nada, porém, testou tanto a parceria quanto o acidente sofrido por Ana Alonso em Granada, em setembro passado, quando foi atropelada.
Entre os primeiros telefonemas que recebeu estava o de Cardona.
«Teria compreendido perfeitamente se ele procurasse outra parceira», recordou Alonso. «O nosso sucesso baseia-se na confiança mútua.»
Para a atleta, competir ao lado do catalão é exigente e inspirador: «É como jogar com o Messi. Obriga-me a dar sempre mais.»
Cardona devolve o elogio: «O que a Anita fez, voltando de onde voltou, é indescritível. Merece tudo.»
Um último esforço para fechar em grande
Na Taça do Mundo desta temporada terminaram em segundo lugar, apesar de Alonso competir com uma joelheira pesada e de Cardona ter de recuperar posições nas suas mangas.
Agora, nos Jogos Olímpicos, chegam em melhor forma e com o embalo das medalhas individuais.
O objetivo é claro: transformar Milano Cortina num capítulo histórico para o esqui de montanha espanhol — e selar, juntos, quatro anos de crescimento, lealdade e ambição partilhada.