Cientistas Mudam Classificação do El Niño Após Pico de Temperatura Global

Cientistas Mudam Classificação do El Niño Após Pico de Temperatura Global

A temperatura média mensal da Terra registrou um salto notável a partir do início de 2023, continuando através de 2025, levando cientistas a reconsiderarem a classificação do El Niño após esse pico de temperatura sem precedentes. Cerca de três quartos da mudança no desequilíbrio energético do planeta podem ser atribuídos à combinação das mudanças climáticas causadas pelo homem e à transição de um ciclo de três anos de La Niña para um El Niño aquecedor. Neste artigo, exploramos como as alterações do El Niño impactam as temperaturas globais e porque a NOAA atualizou sua metodologia de classificação. Além disso, analisamos o efeito do El Niño na temperatura e como o próximo evento pode estabelecer novos recordes climáticos.

NOAA Atualiza Metodologia de Classificação do El Niño

Durante 75 anos, os meteorologistas calcularam os episódios de El Niño e La Niña com base na diferença de temperatura em três regiões tropicais do Pacífico face ao valor considerado normal. Um El Niño era definido por águas 0,5 graus Celsius mais quentes do que o normal e uma La Niña por águas igualmente mais frias. Num planeta em aquecimento, o problema reside no fato de que o conceito de normalidade está em constante mudança.

A NOAA usava a média de 30 anos como referência, atualizando esse valor de década em década. Contudo, a água aqueceu tanto durante eventos de El Niño e La Niña que a agência passou a rever a definição de normalidade de cinco em cinco anos. Mesmo isso deixou de ser suficiente, explica Nat Johnson, meteorologista do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos da NOAA.

Por isso, a NOAA criou um índice de El Niño relativo, que entrou em vigor este mês. Este novo índice compara as temperaturas com o resto das regiões tropicais da Terra. Nos últimos anos, a diferença entre o método antigo e o novo chegou a meio grau Celsius. O que conta é a forma como as águas interagem com a atmosfera. O novo índice deverá traduzir-se em mais alguns episódios classificados como La Niña e menos como El Niño do que no sistema anterior.

O Pico de Temperatura de 2023 Explicado pela La Niña Tripla

Entre 2020 e 2023, a Terra registou uma invulgar La Niña tripla, ou seja, três anos consecutivos deste fenómeno sem um episódio de El Niño pelo meio. Em 50 anos, apenas ocorreram três episódios consecutivos com La Niña em três ocasiões: 1973-1976, 1998-2001 e 2020-2023. Este último episódio começou em setembro de 2020 e prolongou-se até ao início de 2023, tornando-se o primeiro evento triplo do século XXI[122].

Durante uma La Niña, a água quente fica armazenada a maior profundidade, o que arrefece a superfície. Isso reduz a quantidade de energia que escapa para o espaço, explica Yu Kosaka, climatóloga da Universidade de Tóquio. À medida que as temperaturas sobem, o planeta liberta mais energia para o espaço. Com uma La Niña que dura três anos, acontece o inverso.

Aproximadamente 23% do desequilíbrio energético que impulsiona as temperaturas mais altas recentes procede deste padrão de La Niña invulgarmente longo, enquanto algo mais de metade se deve aos gases emitidos pela queima de carvão, petróleo e gás[102]. Normalmente, episódios de La Niña correspondem a uma acumulação de desequilíbrio energético durante um ou dois anos, mas desta vez durou mais tempo.

Quando ocorre uma transição de La Niña para El Niño, é como se a tampa fosse levantada, libertando esse calor acumulado[102].

Próximo El Niño Pode Estabelecer Novo Recorde de Temperatura

Modelos climáticos internacionais apontam para uma provável transição para El Niño já no verão de 2026. De acordo com a NOAA, existe entre 60% e 61% de probabilidade de desenvolvimento do fenómeno para o trimestre setembro-outubro-novembro. Dados do Centro Europeu de Previsões do Tempo a Médio Prazo indicam que rajadas anómalas de vento no Pacífico equatorial estão a deslocar águas muito quentes em direção à América do Sul.

As previsões indicam que o aquecimento da região Niño 3.4 pode atingir ou ultrapassar 1,0°C. Para ser oficialmente classificado como El Niño, o aquecimento médio dessa região do Pacífico equatorial tem de superar 0,5°C durante três meses consecutivos. Além disso, a região costeira do Niño 1+2 já alcança o valor necessário de +0,5°C para classificação de El Niño costeiro, próximo à costa do Peru e do Equador.

Se o próximo evento atingir intensidade moderada ou forte, poderá voltar a impulsionar máximos históricos globais. De acordo com especialistas, o pico da temperatura global tende a ocorrer cerca de três meses após o início da formação do El Niño, o que poderá fazer de 2027 um ano potencialmente recordista. Eric Webb, meteorologista do Departamento de Defesa dos EUA, descreve este processo como uma escada ascendente, explicando que devido ao aumento da concentração de gases com efeito de estufa, o sistema climático não consegue libertar de forma eficaz o calor de um grande evento El Niño antes que o próximo apareça[133].

Conclusão

Levando tudo em consideração, a reclassificação do El Niño pela NOAA reflete a realidade de um planeta em aquecimento acelerado. A La Niña tripla acumulou energia durante três anos, contribuindo significativamente para o pico de 2023. Sem dúvida, o próximo El Niño, previsto para 2026, poderá estabelecer novos recordes de temperatura global. Cada ciclo climático torna-se mais intenso que o anterior, dificultando a libertação eficaz do calor acumulado no sistema terrestre.